MANLIO DINUCCI
GUERRA NUCLEAR
O PRIMEIRO DIA
De Hiroshima até hoje:
Quem e como nos conduzem à catástrofe
3.8 Os movimentos anti-nucleares durante a guerra fria
O primeiro movimento a favor do desarmamento nuclear é o dos Partigiani della Pace. No congresso constituído,
ocorrido em Paris, em Abril de 1949, participam 2.287 delegados de 72 países.
Não estão presentes os delegados japoneses, porque as autoridades dos Estados
Unidos impediram-nos de sair do país, e os dos países de Leste, da União
Soviética e da China, os quais, depois da França lhes ter negados os vistos de
entrada, foram forçados a reunir-se em Praga. No seu manifesto constitutivo, o
congresso pede «a interdição da arma atómica e de todos os meios de destruição
de massa dos seres humanos» e o «controlo internacional efectivo para a
utilização da energia atómica para fins exclusivamente pacíficos».
Promovem este movimento, apoiado pela União Soviética e pelos partidos
comunistas e socialistas de todo o mundo, o físico, Frédéric Joliot-Curie, que
mantém o relatório inicial, no primeiro congresso mundial e Albert Einstein,
os pintores Pablo Picasso (que pinta o manifesto do congresso com a famosa
«Pomba da Paz») e Henri Matisse, o escritores Jorge Amado e Pablo Neruda. Da
delegação italiana ao primeiro congresso, orientada por Pietro Nenni, fazem
parte os escritores Elio Vittorini e Natalia Ginzburg, o poeta Salvatore
Quasimodo, o pintor Renato Guttuso.
Em Março de 1950, a Comissão do Congresso Mundial dos Partidários da Paz,
composto de 150 delegados de todo o mundo, lança em Estocolmo, o Apelo para a
interdição da arma atómica. «Nós exigimos a proibição absoluta da arma atómica,
arma de intimidação e extermínio em massa das populações. Exigimos a realização
de um controlo rigoroso internacional para assegurar a aplicação desta decisão.
Consideramos que o governo que, primeiro, utilizar contra qualquer país a arma
atómica, cometerá um crime contra a Humanidade e deverá ser considerado um
criminoso de guerra. Apelamos para todos os homens de boa vontade, de todo o
mundo, a subscrever este apelo.» O Apelo é assinado, em poucos meses, por mais de
500 milhões de pessoas de todos os continentes. Em Itália, subscreveram-no quase
17 milhões de pessoas, ou seja, 35% da população.
A meio dos anos cinquenta – enquanto o movimento dos Partidários da Paz
se dissolve, a par e passo, com a manifestação dos primeiros sinais de
«desanuviamento», expressão, na realidade, situação de impasse entre os EUA e a
URSS – entram em campo os cientistas com o Manifesto lançado em Julho de 1955,
em Londres, por Bertand Russel e Albert Einstein. «A opinião pública e também
muitos homens em cargos de autoridade – advertem – não se deram conta de quais
seriam as implicações de uma guerra com bombas nucleares. [...]As maiores
autoridades na matéria concordam em afirmar que uma guerra com bombas H,
poderia por fim à raça humana. O Manifesto - assinado além de Bertrand Russell e Einstein, por outros nove cientistas, entre
os quais Frédéric Joliot-Curie, Linus Pauling e Joseph Rotblat – apela aos
cientistas e à opinião pública mundial para pressionarem os seus governos para
que resolvam com meios pacíficos as suas disputas, dado que uma nova guerra
mundial seria combatida com armas nucleares e ameaçaria a existência de toda
a Humanidade.
Linus Pauling, o cientista americano (Prémio Nobel da Química 1954), que
recusou o convite de Oppenheimer para trabalhar no Projecto Manhattan,
tornou-se um dos protagonistas da batalha anti-nuclear, empenho pelo qual
receberá, em 1962, o Prémio Nobel da Paz. Joseph Rotblat – o único cientista
que abandonou o Projecto Manhattan depois da confirmação, em Novembro de 1944,
que a Alemanha nazi não tinha conseguido construir a bomba atómica – funda, em
1957, as Pugwash Conferences on Science and World Affairs, um forum de cientistas que
se batem pela abolição das armas nucleares e pela solução pacífica dos
conflitos internacionais. Quase meio século depois, em 1995, Rotblat e o
Pugwash receberam o Prémio Nobel da Paz «pelos esforços tidos para
diminuir o papel desenvolvido pelas armas nucleares na política internacional
e, a longo prazo, terminar tais armas».
Em 1958, o mesmo Rotblat e outro, fundam em Londres a Campaign for Nuclear Disarmament (CND),
onde participam, juntamente com cientistas, organizações religiosas e
ambientalistas, militantes do partido Labour e comunistas, escritores, artistas
e milhares de outros pacifistas. Ao mesmo tempo, em 1957, forma-se nos Estados
Unidos o National Committee for a Sane
Nuclear Policy (SANE), que empreende uma série de iniciativas para o
desarmamento e controlo das armas.
Na União Soviética e nos países da Europa Central e Oriental, operam as
Comissões da Paz, organizações para-institucionais, em colaboração com o
Conselho Mundial da Paz que, da sua sede em Helsínquia, promove encontros e
campanhas para o desarmamento, em que participam também organizações pacifistas
dos Estados Unidos e da Europa Ocidental.
A pesquisa sobre as armas nucleares e sobre as políticas de desarmamento
é levada a diversos institutos que se formam neste período; entre outros , a Educational Foundation for Nuclear Science que, constituída nos Estados Unidos, em 1949, publica o Bulletin of Atomic Scientists; o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI),
instituído em 1966, pelo parlamento sueco com o estatuto de fundação
independente; o Center for Defense
Information (CDI), fundado em Washington, em 1972, por antigas alta patentes
americanas, sobretudo, da Marinha.
Em 1971 nasce o Green Peace, organização internacional que faz da abolição
do nuclear um dos eixos de suporte do seu programa e das suas campanhas
contínuas.
Em 1980 dois médicos, o americano, Bernard Lown, e o soviético, Evgueni
Chazov, fundam a International Physicians
for the Prevention of Nuclear War (IOPNW), à qual aderem cerca de 200 mil
médicos de todos os continentes. A secção italiana é presidida pelo Prémio Nobel
da Medicina, Daniel Bovet. Em 1985, a IPPNW recebe o Prémio Nobel da Paz pelo
«considerável serviço desenvolvido a favor da Humanidade, divulgando uma
informação autorizada e criando uma consciência sobre as consequências
catastróficas da guerra atómica».
Apesar do esforço contínuo destes movimentos, a luta contra as armas
nucleares não consegue imputar-se como uma posição das massas. As coisas mudam
quando o confronto nuclear entre as duas super potências envolve directamente
também a Europa. Entre 1976 e 1980, a URSS distribui no seu próprio território
os RT-21M/SS-20 Saber: são mísseis balísticos de alcance médio, com ogiva
nuclear simples, o MIRV (3 ogivas por míssil), muito precisos. Baseados no
facto de que, do território soviético, possam atingir a Europa Ocidental, a
NATO decide, em 1979, distribuir na Europa, a partir de 1983, mísseis nucleares
americanos de alcance médio: 108 mísseis balísticos Pershing 2 , na Alemanha, e
464 mísseis de cruzeiro (Cruise), lançados de terra (GLCM), distribuídos na Grã
Bretanha (160), Itália (112), Alemanha Ocidental (96), Bélgica (48) e Países
Baixos (48).
Em Itália, a meio dos anos oitenta, além das 112 ogivas nucleares dos
mísseis de cruzeiro, instalados em Comiso, chegam outras armas nucleares
americanas. Segundo uma estimativa confiável, essas armas compreendiam 250
bombas para serem lançadas por aviões, 50 ogivas em mísseis terra-terra Lance, de curto alcance
(120 km), 70 mísseis terra-ar Nike-Hercules de alcance curto (140 km), 22
munições de demolição atómica, 40 projecteis de artilharia de 203 mm e 15 de
155 mm, 65 bombas de profundidade, 50 ogivas para mísseis anti-submersíveis. No
total, quase 700 armas nucleares, das quais uma parte de «chave dupla», ou
seja, utilizáveis pelas Forças Armadas italianas sob decisão dos EUA.
A estas juntam-se as armas nucleares da Sexta Frota Americana, cujo
quartel general é em Gaeta, e as dos submarinos americanos de ataque nuclear,
cuja base se encontra em La Maddalena. Aqui é deslocada a nave-apoio, o USS Simon
Lake, com mais 50.000 peças de substituição para as reparações e tudo o que
serve para tornar a fornecer os submarinos, estando compreendidas as armas nucleares.
A Europa Ocidental encontra-se, assim, na
primeira linha do confronto nuclear entre as duas super potências. A pouco mais de 10 minutos de
lançamento, os Pershing 2 americanos estabelecidos na Alemanha, podem atingir as bases
e as cidades soviéticas, incluindo Moscovo, com as suas ogivas nucleares de
hidrogénio de 50 Kiloton. Ao mesmo tempo, os mísseis de cruzeiro implantados em
Comiso e noutras bases europeias, voando à velocidade subsónica (880 km/h)a uma
altitude de poucas dezenas de metros, ao longo do contorno do terreno, podem
fugir aos radares e atingir as cidades soviéticas com as suas ogivas nucleares
de 200 kiloton. À sua volta, os SS-20, distribuídos no território soviético podem
atingir, a pouco mais de 10 minutos do lançamento, as bases e as cidades da
Europa ocidental com uma ogiva nuclear de 1 megaton ou três de 150 kiloton.
Contra os «euromísseis» desenvolve-se, a nível internacional, um
movimento de massas, que se inicia em Itália, em Dezembro de 1979, depois do
Governo Spadolini (DC, PLI, PSDI) aprovar a instalação dos Cruise no território
nacional e, em Agosto de 1981, o governo Spadolini (DC, PSI, PSDI, PRI, PLI)
anunciar oficialmente a escolha de Comiso, como sendo a base para a sua instalação. Depois de uma série de iniciativas, entre as quais a Marcha
Perugia-Assisi, ocorre em Roma, em 24 de Outubro de 1981, a primeira grande
manifestação com a participação de meio milhão de pessoas. Grandes
manifestações contra a instalação dos «euromísseis» desenvolvem-se, sempre em
Outubro, em Bonn, Milão, Oslo, Bruxelas, Paris, Veneza; em Novembro, em
Madrid, Atenas, Amesterdão; em Dezembro, em Berna, Copenhaga, Barcelona. Em
frente às bases americanas de Greenham Common, em Inglaterra, onde foram
instalados os mísseis Cruise, as mulheres estabeleceram um campo permanente para a
paz, que se torna o símbolo da resistência feminina.
No movimento em Itália, desenvolvem um papel dominante, os partidos da esquerda:
o PCI que, embora em fase declinante, ainda tem uma grande força de
mobilização, organização e propaganda; o PdUP e o DP. Na primeira fila da luta
contra a construção das bases de mísseis de Comiso e dos interesses mafiosos
ligados a elas, está o Secretário regional, Pio La Torre, que é assassinado por
este motivo, juntamente com a sua colaboradora, Rosario Di Salvo, em 30 de Abril
de 1982, em Palermo. A direcção do PCI, enquanto de um lado apoia o movimento
contra a instalação dos mísseis em Comiso, por outro lado, condiciona-o
grandemente às suas escolhas políticas. O movimento, na sua expressão nacional,
mantém-se assim, para a maior parte, no plano de um pacifismo genérico, pedindo
a todos o desarmamento, sem colocar objectivos políticos específicos, em primeiro lugar, nos confrontos com o governo italiano, por exemplo, um apelo a
um referendo sobre a instalação dos mísseis em Comiso. As sucessivas manifestações
nacionais (5 de Junho de 1982 e 19 de Março de 1983) têm uma participação
decrescente.
No entanto, ao mesmo tempo, começam a formar-se várias agregações
autónomas: a Liga dos Objectores de Consciência, o Movimento Internacional de
Reconciliação, a Liga para o Desarmamento Unilateral, Bem-aventurados os
Construtores da Paz, Luta pela Paz e numerosas comissões locais, a partir da
CUDIP de Comiso, fundada pelo antigo parlamentar. Giacomo Cagnes. Fortemente empenhado,
é o Movimento Católico Internacional para a Pax Christi, em Itália sob a
presidência do Monsenhor Luigi Bettazzi e, depois, de Don Tonino Bello. Na
primeira fila das iniciativas do desarmamento está o Padre Ernesto Balducci,
que promove a revista Testimonianze, as conferências «Se queres a Paz, prepara
a Paz» e, subsequentemente, funda a
Edizioni Cultura della Pace. Em 1982, forma-se a Unione Scienziati per il
Disarmo (USPID), com o objectivo de fornecer informações e análises sobre o
controlo dos armamentos e o desarmamento.
Em Comiso, no Verão de 1982, acontece o IMAC (International Meeting
Against Cruise), um campo internacional para a paz que põe em contacto os
pacifistas italianos com os de outros países europeus. Os participantes deste
encontro pacífico, organizado pelo IMAC à volta da base de Comiso, são
violentamente desalojados pela polícia em 8 de Agosto de 1983. Uma última manifestação
notável ocorre em Roma, na véspera da chegada dos mísseis a Comiso, em 22 de
Outubro de 1983. Participam um milhão de pessoas, mas agora, o movimento está
numa fase de diminuição, se bem que vários dos seus componentes continuaram a
empenhar-se na luta contra os mísseis em Comiso.
Nos anos oitenta vê-se formar ainda, um outro movimento: as organizações
contra o nuclear civil. A primeira manifestação nacional, promovida pela Lega
Ambiente, acontece em Roma, em 20 de Abril de 1985, contra o plano nuclear do
governo Craxi 8DEC, PSI, PRI, PSDI, PLI). Mas é em 1986, depois da catástrofe de
Chernobil, que o movimento toma lanço: na manifestação nacional, que tem lugar
em Roma, em 10 de Maio de 1986, há uma participação maciça de jovens. Sempre em
Maio, inicia-se a campanha para três referendos revogados. Também a CGIL não
participa, não obstante, muitas delas apontando para impedir a existência do
nuclear em Itália. Ela é promovida por Verdi, FGCI, DP e outros, mas não pelo
PCI. A CGIL também não participa, embora
muitas solicitações da base sejam favoráveis à opção anti-nuclear. Em pouco
tempo são recolhidas um milhão de assinaturas. Nesta altura, até o PCI se
declara favorável à saída do nuclear, se bem que de maneira não completa. Ao
mesmo tempo, convergem no movimento, forças pacifistas empenhadas na luta contra
o nuclear militar. Centenas de cidades e comunidades, na primeira metade dos
anos oitenta, declaram o próprio território «zona desnuclearizada», proibindo,
simbolicamente, as instalações de armas e centrais nucleares. Quando, em 8 e 9
Novembro de 1987 acontece o referendo, a frente anti-nuclear obtém uma vitória
avassaladora. Um mês depois, em 8 de Dezembro, os EUA e a URSS assinam o
Tratado INF, que elimina, entre outras armas, os mísseis distribuídos em Comiso.
Os dois objectivos pelos quais os movimentos anti-nucleares se tinham batido, no
decorrer dos anos oitenta, são assim realizados. No entanto, a vitória contém a
semente da derrota: a ilusão de que agora o perigo
nuclear é evitado.Significativamente, a assembleia nacional das Instituições
Locais Desnuclearizadas decide, em Outubro de 1986, constituir a Coordenação
Nacional das Instituições Locais para a Paz (denominação assumida em 1991), que
elimina do próprio estatuto, qualquer alusão ao nuclear.
A seguir:
Capítulo 4
AS GUERRAS DEPOIS DA GUERRA FRIA
4.1 O mundo numa encruzilhada
Tradutora: Maria Luísa de
Vasconcellos
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