SEX, 20/04/2018 - 18:01
Ilustração Obvious
do Coletivo Transforma MP
Em terra de cego, quem tem um olho é
petralha?
por Daniela Campos de Abreu Serra
A frase que dá título a estas reflexões é de autoria do
poeta e músico Rafael Reparador e, originalmente, proferida em tom afirmativo (https://www.facebook.com/1347964985). Adaptei para o questionamento porque pretendo refletir
sobre, ou seja, será que em terra de cego quem tem um olho é petralha? Nos
últimos tempos, em especial desde o impeachment da Presidenta Dilma em 2016,
venho me sentindo muito ofendida de ser chamada de “petralha” ou “lulista”, por
isso resolvi refletir sobre esse tema.
Em outras ocasiões que tive a oportunidade de escrever na
coluna do Coletivo Transforma MP, já venho refletindo, logicamente a partir da
minha percepção do mundo, o “Ensaio sobre a Cegueira” que tem inebriado parte
da sociedade brasileira. E essa reflexão é feita a partir de um lugar de fala
muito claro: mulher, branca, classe média alta e Promotora de Justiça. Não
adianta eu querer disfarçar e dizer que falo aqui como cidadã, porque as
atribuições constitucionais de Promotora de Justiça permeiam minhas veias e eu
vivo o Ministério Público, não há como dissociar os papéis. Não adianta eu
dizer que compreendo o que é passar fome, se eu nunca efetivamente vivi e senti
as dores no corpo de quem não tem o que comer. Por mais que eu compreenda o
contexto histórico da escravidão e suas consequências contemporâneas, não serei
capaz de compreender o sentimento daquele que já sofreu discriminação racial.
Agora, como mulher, posso compreender e dizer do sentimento de ser ignorada durante
uma conversação que os participantes sejam homens e você a minoria. Tais
premissas são importantes, pois quando rotulamos pessoas com adjetivos como
“esquerdopata”, “mortadela” ou “petralha”, olvidamos suas histórias de vida e
seus lugares de fala. Isso não significa que como branca eu não possa refletir
criticamente sobre o racismo e a discriminação racial, por exemplo, mas se faz
importante identificar esse lugar de fala, para evitar contemporizações como
“eu entendo isso que você está falando”, pois, a dimensão da compreensão de
quem não viveu a situação é menor do que de quem estudou sobre.
Quando reflito sobre minha percepção de que parte da
sociedade brasileira está vivendo uma espécie de “Ensaio sobre a Cegueira”,(LIVRO EM PDF) trago à reflexão que a obra de José Saramago nos permite pensar sobre como
algumas ideias dominam o imaginário social como uma epidemia, capaz de cegar as
pessoas e as conduzir a reações primitivas em que o ódio é o sentimento
predominante, tal como atualmente observamos no Brasil. O estímulo ao ódio,
principalmente entre classes, tem dificultado a percepção de que após o
impeachment da Presidenta Dilma, não foi “só” o cargo da Presidência que foi
ocupado por outra pessoa, mas que tal mudança impactou sobremaneira a concepção
política de gestão do Estado brasileiro e, a partir de então, a construção do
Estado de Bem Estar Social desenhado pela Constituição Federal de 1988, que
caminhava a passos lentos (mas caminhava), deixou de ser implementado e passou
a sofrer ataques que estão causando graves retrocesso sociais, como o retorno
do Brasil para o Mapa Mundial da Fome.
O “resumo” dessa obra foi brilhantemente exposto pela
Associação Juízes para a Democracia (AJD), entidade não governamental e sem
fins corporativos, que tem dentre seus objetivos estatutários o respeito ao
Estado Democrático de Direito, que preocupada e atenta aos rumos da democracia
no país, através de nota pública manifestou nos seguintes termos: “O processo
de deposição de uma Presidenta legitimamente eleita, ocorrido em 2016, tem
paulatinamente sido reconhecido, pela maioria da população brasileira, como uma
verdadeira ruptura democrática. O avanço do que poderia ser considerado um
Estado de exceção não se limitou a esse ato, porém, de modo que se observam
novas fraturas nas abaladas estruturas políticas que ainda sustentam a
República.
Manifestações de representantes das forças armadas são
proferidas para pressionar os demais poderes do Estado brasileiro, de modo a
influenciar até mesmo decisões da mais alta Corte Judicial. Por sua vez, os
meios de comunicação de massa eliminam do discurso as vozes dissonantes e
exercem forte interferência sobre a opinião pública, subvertendo a verdade
jornalística para atender interesses minoritários e restringindo, em vez de
ampliar, a liberdade de expressão. Ademais, o uso das forças repressivas contra
manifestantes pacíficos vem se intensificando em extensão e em violência. Mais
especificamente, forças militares foram deslocadas para servir à intervenção
federal no Estado do Rio de Janeiro sem que houvesse motivos fáticos e
históricos para tal medida.
Como se não bastasse, a partir de 2016, mais de cem
ativistas sociais que lutavam pela causa dos direitos humanos foram mortos no
Brasil, o que culminou com a execução da parlamentar Marielle Franco, no Rio de
Janeiro, há quase trinta dias. Outros inúmeros militantes de direitos humanos
têm sido ameaçados de morte, como, por exemplo, o Padre Júlio Lancelotti,
coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo.
As diversas instâncias do Poder Judiciário estão se
sentindo compelidas a adaptar suas pautas ao calendário eleitoral, e mesmo o
Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o guardião da Constituição Federal,
passa a realizar julgamentos modificando entendimentos jurisprudenciais consagrados
para atingir (ou não!) determinados atores políticos. De outro lado, juízes com
posicionamentos ideológicos divergentes do campo político majoritário são
perseguidos e sofrem procedimentos administrativos com vistas à punição.
Todas essas circunstâncias levam a Associação Juízes para
a Democracia a vir a público para denunciar que a ruptura do Estado Democrático
de Direito no Brasil já é uma realidade, aprofundando-se a cada dia e ampliando
os termos da violação cotidiana à Constituição e às liberdades cidadãs.
A AJD conclama, portanto, todos os cidadãos e cidadãs a
engajarem-se ativamente na defesa do Estado Democrático de Direito e da
Constituição e a oporem-se, em todas as frentes de que participem –
associações, sindicatos, igrejas, clubes, partidos, o que for – ao avanço do
autoritarismo e aos ataques à democracia, venham de onde vierem. São Paulo, dia
17 de abril de 2018”¹.
Sinceramente, a questão que se coloca não é mais se
existiam hipóteses constitucionais ou não para a validade e legitimidade do
impeachment da Presidenta Dilma, mas, que após esse fato, a gestão do governo
brasileiro modificou-se estruturalmente e não mais busca atingir os objetivos
fundamentais da República descritos no Artigo 3º da Constituição Federal, em
especial, no tocante à erradicação da pobreza e da marginalização e da redução
das desigualdades sociais e regionais. Esse para mim é o ponto que gostaria de
ressaltar nessa reflexão, pois, enquanto nos dividimos em rótulos de “coxinhas”
e “petralhas”, não conseguimos enxergar que a gravidade do atual cenário
político brasileiro reside no abandono dessa principal parte do projeto, pois,
enquanto a desigualdade de renda for o principal fator para a exclusão social
no Brasil, não há como se falar em princípio da dignidade da pessoa humana, na
medida em que não se pode garantir o mínimo existencial a todos os cidadãos
brasileiros. E se defender essa premissa me torna uma “petralha”, lamento por
aqueles que ainda não enxergaram a realidade brasileira, mas, no exercício da
missão constitucional do Ministério Público, como Promotora de Justiça sou
obrigada a defender e trabalhar pela consecução dos objetivos fundamentais da
República, independente da minha visão de mundo ser liberal, socialista ou
qualquer outra pensada pelos filósofos, sociólogos, cientistas políticos, entre
outros.
Enquanto finalizava essas reflexões, fui surpreendida
pela notícia de instauração de processo administrativo disciplinar² pela
Corregedoria Nacional do Conselho Nacional do Ministério Público em desfavor do
Procurador de Justiça paranaense Olympio de Sá Sotto Maior Netto. Conforme
consta da referida portaria, “no dia 03 de fevereiro de 2018, o Procurador de
Justiça O. S. S. M. N., Membro do Ministério Público do Estado do Paraná,
durante o evento oficial denominado ‘IV Conferência Estadual de Promoção da
Igualdade Racial do Paraná, ocorrido no Hotel Estação Express, na capital
paranaense, do qual participou como Coordenador do Centro de Apoio Operacional
de Proteção dos Direitos Humanos, representando o Ministério Público daquele
estado, com consciência e vontade, finalizou seu discurso sobre o retrocesso
das políticas públicas atinentes aos direitos humanos proclamando a expressão
‘FORA TEMER’. Ao assim proceder, o processado deixou de observar o dever legal
de guardar o decoro pessoal e de manter conduta pública ilibada atentando
contra a dignidade de suas relevantes funções e o prestígio do Ministério
Público”. Ao final, nos termos legais expostos, foi proposta a aplicação da
penalidade de advertência.
A instauração deste procedimento causou espanto a
centenas de membros do Ministério Público brasileiro, não somente pela História
deste Procurador de Justiça paranaense na defesa dos direitos humanos há
décadas, cuja conduta funcional é irrepreensível, mas também por já ter
exercido por duas vezes a função de Procurador-Geral de Justiça do Ministério
Público do Paraná, o que também lhe confere anos de luta institucional em
defesa da instituição do Ministério Público. Assim, seja no aspecto da atuação
externa em defesa da sociedade como um todo e em especial das minorias, seja no
aspecto da atuação interna no fortalecimento do próprio Ministério Público, não
somente paranaense, mas brasileiro, não se pode conceber admitir uma afirmação
que relacione o ato do Procurador de Justiça Olympio de Sá Sotto Maior Netto
sem observância do “dever legal de guardar o decoro pessoal e de manter conduta
pública ilibada atentando contra a dignidade de suas relevantes funções e o
prestígio do Ministério Público”.
Neste sentido, importante relembrar que em março de 2017
o Coletivo Transforma MP protocolou junto à Corregedoria Nacional do CNMP
extensa manifestação tratando sobre a liberdade de expressão dos membros do
Ministério Público³. Na ocasião, foi exposto em nosso site que “em sua
manifestação, o Transforma MP busca desfazer, sempre com base na Carta de 88,
qualquer confusão quanto à possibilidade de relacionar atividade
político-partidária à atuação dos membros como agentes políticos. Nesse
sentido, o Coletivo destaca que o diálogo público deve ser aprofundado, para
além das salas de audiência, com o intuito de influenciar nas tomadas de
decisão que irão transformar a sociedade e renovar o pensamento e as práticas
institucionais.
O Coletivo por um Ministério Público Transformador
acredita, dessa forma, que os membros do MP devem contribuir sempre para a
formação de uma visão crítica da sociedade, papel ainda mais urgente e
imprescindível em momentos de crise institucional, como o que o Brasil vive
desde os debates que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff até o momento
atual, quando um novo governo busca impor ‘agendas políticas’ não submetidas ao
diálogo com a população.
Por isso, de acordo com o documento direcionado à
Corregedoria do CNMP, o Coletivo entende que restringir a atuação dos membros
do MP como agentes políticos, alargando a noção do que seria atividade político
partidária, não só fere os direitos estabelecidos pela constituição como impede
o Ministério Público de realizar os seus objetivos estratégicos (art. 3o,
Constituição) e a sua missão institucional (art. 127, caput,
Constituição)”[4].
Assim, tal como exposto acima e na manifestação sobre
liberdade de expressão cujo texto integral está disponível ao leitor através do
acesso ao link citado, os membros do Ministério Público brasileiro precisam
enxergar que para além do receio de ser rotulado como “petralha”, cada um de
nós está atrelado umbilicalmente à consecução dos objetivos fundamentais da
República expressos como mandamentos pela Constituição Federal de 1988 e, na
defesa da construção deste Estado brasileiro posto pelo texto constitucional,
temos o dever de expor e refletir sobre a ocupação do cargo de Presidente da
República pelo vice Michel Temer, pois este é o marco histórico e político que
deu início aos retrocessos sociais no Brasil e, em consonância com o princípio
constitucional da vedação ao retrocesso, os membros do Ministério Público
possuem o dever funcional e constitucional de oposição a tais retrocessos, sem
preocupação com rótulos ou adjetivos, sejam eles quais forem.
Daniela Campos de Abreu Serra, Promotora
de Justiça (MPMG), Mestre em Serviço Social pela UNESP e membro do Coletivo por
um Ministério Público Transformador.
¹ Disponível em
http://www.ajd.org.br/noticias_ver.php?idConteudo=876
² Portaria CNMP-CN nº 0106, de 09 de abril de 2018,
disponível em
https://diarioeletronico.cnmp.mp.br/apex/EDIARIO.view_caderno?p_id=5887
³ Disponível em
https://drive.google.com/file/d/0B1HWNGXMs1c-azg4NkVvdWZpX28/view
4 Disponível em http://www.transformamp.com/coletivo-liberdade-expressao/
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