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Saturday, 21 April 2018

BR -- Síria, Irã e "caos nas relações internacionais", por Pepe Escobar

Síria, Irã e "caos nas relações internacionais", por Pepe Escobar

19/4/2018, Pepe Escobar, Asia Times


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





Mesmo em ambiente geopolítico de pós-verdade em torvelinho, o presidente da Rússia Vladimir Putin dizer ao seu contraparte iraniano, Hassan Rouhani, em conversa telefônica, que qualquer novo ataque ocidental contra a Síria pode "levar ao caos, nas relações internacionais" deve ser visto no mínimo pelo que é: impressionante eufemismo.


Segundo o Kremlin, Putin e Rouhani concordam em que os ataques da entidade que os mais cínicos chamam de F.U.K.U.S. [por aproximação fonética, "F... EUA"] –, F de França, UK de United Kingdom [Reino Unido] e US de EUA – causaram grave dano às chances de se alcançar qualquer solução política significativa na Síria.

Equivale a Putin e Rouhani reconhecerem que Washington, Londres e Paris não estão pegando leve para conseguirem voltar ao jogo, batendo de frente contra o trabalhoso processo de paz de Astana levado a efeito por Rússia, Irã e Turquia. 

Significativamente, o ministro de Relações Exteriores do Iraque, Ibrahim al-Jaafari lembrou ao secretário de Estado interino dos EUA John Sullivan, também pelo telefone, a "necessidade de encontrar, como tarefa prioritária, uma solução política, e que o povo sírio, só ele, deve decidir sobre o próprio destino."

Significa, na essência, que os "4+1" – Rússia, Síria, Irã, Iraque, mais o Hezbollah – que estiveram na vanguarda da luta para destruir o ISIS, 'Estado Islâmico', e outros grupos cripto-jihadistas na Síria – mantêm-se em sintonia. O quartel-general dos "4+1" era em Bagdá. Por mais que Bagdá cultive diferenças ideológicas em relação a Damasco, a estratégia de ambos os governos é construída para combater salafistas-jihadistas de todas as cepas.

Frente Unida

O Iraque, assim como o Líbano, foi das raríssimas nações em todo o Oriente Médio que condenou os ataques de EUA-Reino Unido-França. O Conselho de Cooperação do Golfo, CCG, clube do petrodólar – comandado pela Casa de Saud – apoiou os ataques, como era de esperar, dado que a agenda deles é inapelavelmente favorável a qualquer mudança de regime que eles mesmos provoquem.

Moscou, Damasco, Teerã e Bagdá mantêm-se em frente unida, mesmo depois de os supostos ataques químicos em Douma – causa alegada dos ataques – já estarem desmascarados. Além disso, permanecem sem respostas algumas perguntas cabeludas, sobre por que seriam necessários mais de 100 mísseis para destruir apenas três complexos de prédios já quase totalmente desocupados em Damasco e Homs, onde operavam centros científicos estatais.

Apesar de Damasco e Bagdá terem declarado vitória, a galáxia salafista-jihadista pode ter sido gravemente ferida na Síria e no Iraque, mas não foi extinta. A Turquia ainda cultiva algumas conexões bem sórdidas.

Assim, a variável chave no processo de Astana – que envolve complexas negociações econômicas e militares – continua a ser Ancara, que não tem intenção de abandonar sua crescente operação na Síria, antes de dar cabo do YPG curdo onde quer que esteja.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan, diferente de seus parceiros, apoiou os ataques à Síria. Ao mesmo tempo, Erdogan comicha de desejo pelo sistema de míssil russo S-400, que deve ser entregue à Turquia o mais rapidamente possível, para desprazer da OTAN. 

O verdadeiro teste para os parceiros do acordo de Astana será Idlib – que já é objeto de negociações ferozes. O enviado especial do Irã para assuntos sírios, Ali Akbar Velayati, já disse pela mídia que o próximo objetivo da guerra é, sim, Idlib [sobre Idlib ver também Elijah Magnier, in Blog do Alok(NTs)].

Moscou tentou convencer Erdogan a entregar a Damasco o cantão curdo de Afrin – hoje ocupado por militares turcos. Até agora não há sinal de que tenha conseguido. Forças russas realmente deixaram Afrin antes da ofensiva turca. Assim sendo, os turcos, em ato recíproco, devem abandonar também suas bases em Idlib. 

O ponto chave é que a troika EUA-França-Reino Unido – para nem falar da Casa de Saud – absolutamente não tem meios para influenciar esses eventos em andamento em campo. 

Irã atacado por mísseis financeiros 

Se os ataques à Síria realmente aumentaram o "caos nas relações internacionais" a que Putin fez alusão, é possível que isso seja só a abertura, comparada à grande cena; o destino do acordo nuclear iraniano está para ser decidido mês que vem.

A diretora de Política Exterior da União Europeia Federica Mogherini, antes da reunião do Conselho de Assuntos Exteriores da União Europeia, reunido em Luxemburgo, disse, sem meias palavras: "A União Europeia sempre deixou perfeitamente claro que, para nós, é vital que o acordo [nuclear iraniano] seja mantido. É interesse estratégico da União Europeia e o defenderemos."

Falando do que, para todas as finalidades práticas, é prazo fatal fixado pelo governo Trump, 12 de maio, Mogherini acrescentou: "Estamos fazendo todo o possível com nossos amigos norte-americanos para garantir que todos os signatários permaneçam integralmente comprometidos com a implementação do acordo."

Todos em Bruxelas sabem que Teerã cumpre todas as suas obrigações nos termos do acordo nuclear, o que a Agência Internacional de Energia Atômica já atestou em 10 relatórios sucessivos de visitas de inspeção.

Mesmo assim, França, Grã-Bretanha e Alemanha já falam, como meio para acalmar o presidente Trump, de aplicar sanções contra "milícias e comandantes" iranianos que lutam ao lado de Damasco. A Itália, apoiada pela Áustria, é veementemente contra.

Como diplomatas confirmaram para esse Asia Times, já se sabe que nada acontecerá no prazo demarcado por Trump para "consertar" o acordo nuclear. O que realmente interessa às nações da UE, individualmente consideradas, é aumentar seus lucrativos negócios com o Irã.

Acesso restrito a EUA-dólares

Tudo isso acontece enquanto o presidente do Banco Central do Irã Valiollah Seif denunciou o que não é menos que ataque por míssil financeiro: "Inimigos fora de nossas fronteiras, sob diferentes disfarces, estão alimentando essa questão, e se esforçarão para tornar mais difícil a vida para o povo iraniano."

Valiollah referia-se à crise do rial. A moeda corrente era negociada a 40 mil rial, por EUA-dólar, em 2017, mas acaba de saltar para 60 mil rial por EUA-dólar. Teerã rapidamente anunciou um plano para fixar um valor de câmbio [orig. currency peg] em 42 mil rials.

A ideia que circula em Teerã é que inimigos wahhabistas, Riad e os Emirados, estão restringindo o acesso de Teerã a EUA-dólares. E, claro, permanecem vigentes algumas duras sanções de Washington sobre financiamentos bancários.   

Teerã tem pela frente dias difíceis. Ainda que a União Europeia mantenha-se comprometida com o acordo nuclear, mais uma saraivada de sanções vindas de Washington, entusiasticamente recomendadas por John "Bombardeie o Irã" Bolton, pode forçar a retirada do mercado de cerca de 500 mil barris de cru iraniano por dia.

Se Washington retira-se – unilateralmente – do acordo, ou insiste em alterações que Teerã considere inaceitáveis, o Plano B já está pronto: Moscou e Pequim estão dispostos a ajudar Teerã a reiniciar o seu programa nuclear para finalidades civis.

A questão já foi discutida em janeiro, pelo vice-presidente da Organização de Energia Atômica do Irã [ing. Atomic Energy Organization of Iran (AEOI)], Mohammad Ahmadian. A China considera ativamente a possibilidade de construir pequenas usinas nucleares no Irã.

Tudo isso aponta, mais uma vez, para o projeto de massiva integração da Eurásia, em andamento – a polinização cruzada entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE) –mostrando, não por acaso, os três nodos chaves: China, Rússia e Irã.

E somando tudo, nesse caso o braço europeu da OTAN desligou até a retórica de "agressão": os cães da guerra ("Homens de verdade vão para Teerã") podem voltar a latir, mas nem isso forçará a caravana UE a desistir de seus negócios com a Pérsia.*******

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