Saturday, 21 April 2018

BR -- Para entender o estupro do Brasil, em 2016: Estupro da Rússia, nos anos 1990s. Lars Schall entrevista F. William Engdahl (2/2)

Para entender o estupro do Brasil, em 2016: Estupro da Rússia, nos anos 1990s. Lars Schall entrevista F. William Engdahl (2/2)

Lars Schall (LS) entrevista F. William Engdahl (FWE), autor de Manifest Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [Destino Manifesto: Democracia como cognição dissonante,* sem trad. ao português], transcrição, traduzido do inglês, de The Vineyard of the Saker, Introdução de Pepe Escobar (2/2)


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


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Ver também


Para entender o estupro do Brasil, em 2016

Estupro da Rússia, nos anos 1990s 

Lars Schall (LS) entrevista F. William Engdahl (FWE), autor de Manifest Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [
Destino Manifesto: Democracia como cognição dissonante, sem trad. ao português], transcrição, traduzido do inglês, de The Vineyard of the Saker, Introdução de Pepe Escobar (1/2)______________________________




[continuação, a partir de 26"40']
LS: É. Vamos falar sobre isso. É o que se conhece como Terapia de Choque Jeffrey Sachs, ou Terapia de Choque de Harvard.



FWE: Bem, a Terapia de Choque Jeffrey Sachs, mas a Terapia de Harvard é... – Bem, o que aconteceu, a próxima fase dessa história incrível. É importante ter isso em mente e essa é uma das razões pelas quais escrevi o livro, por causa do que estava já claro depois do golpe de estado da CIA em 2014 na Ucrânia e todas as sanções contra a Rússia de Putin e tal.
 





Porque se não se compreende isso, se não se compreende o que realmente aconteceu nos anos 1990s, não se compreende o ódio profundo, insuperável, que há nesses neoconservadores de Washington e seus think-tanks e no establishment político dos EUA, contra a Rússia de Putin e o nacionalismo que anima a Rússia. Não é possível compreender o que está acontecendo hoje com todas essas mentiras inconcebíveis e acusações ensandecidas contra a Rússia por todos os crimes imagináveis.





Isso posto, o que aconteceu foi que, como já disse, o Fundo Monetário Internacional, FMI, fez belo serviço para Washington e George Soros e outros, em termos de saquear patrimônio das economias assassinadas na América Latina, Iugoslávia, Polônia e outros, durante a crise do petróleo nos anos 1970s. O FMI foi usado, bem como um grupo de economistas que cercavam Jeffrey Sachs, então jovem professor na Universidade de Harvard, para impor o que Sachs chamou de "terapia de choque".





E a ideia, da qual Sachs convenceu Yeltsin, foi que ele deixasse os preços subirem nos mercados ocidentais, que isso aumentaria a oferta de bens, você sabe, havia falta de itens de consumo no tempo dos soviéticos, e Yeltsin deveria livrar-se de todas as barreiras comerciais, para que produtos estrangeiros pudessem encher as prateleiras na Rússia. Problema, só, que começa com uma mentira. As lojas estavam repletas. Claro, havia 'falta ' de Flocos de Milho Kellogg, de Frango Frito Sei-lá. Mas havia suprimento suficiente de alimentos produzidos na Rússia, até novembro de 1991, quando Yeltsin anunciou que exatamente dia 31/12/1991, o controle de preços desapareceria. Claro que instantaneamente os donos de lojas esconderam os produtos e esperaram que chegasse 31/12. Então, sim, as lojas ficaram vazias e o racionamento foi imposto. Eu sei. É inacreditável.





Esse foi o serviço de Jeffrey Sachs em matéria de terapia de choque, e de um grupo da Universidade de Harvard sob os auspícios do Harvard Institute for International Development, um grupo de, dentre outras coisas adiante descobertas, de agentes da CIA estabelecidos em Moscou e que trabalharam com a equipe econômica de Yeltsin, Gaidar e Yegor Gaidar e Anatoly Chubais e eles mesmos, e economistas de Harvard especialistas em Rússia Oriental. Depois, com o governo Clinton, quando Lawrence Summers, ex-professor de Harvard e ex-economista-chefe do Banco Mundial foi nomeado vice-secretário do Tesouro, responsável por saquear a Rússia, efetivo responsável pela transição da Rússia para bem longe do ouro, veio o período chamado de "a transição em 1993".[1]





E todos os atores chaves foram nomeados por Summers e estiveram envolvidos na privatização da Rússia. Todos eram da Máfia de Harvard. Por exemplo, David Lipton, ex-sócio da consultoria de Jeffrey Sachs, tornou-se vice-secretário do Tesouro assistente para a ex-União Soviética e Europa oriental, e o próprio Sachs foi nomeado diretor do Harvard Institute for International Development (HIID) que supervisionou o saque da Rússia mediante cupons de privatização e tal e tal. E todos receberam doações da USAID, que trabalha muito próxima da CIA em diferentes partes do mundo – o que está documentado. Quero dizer: foi realmente uma gangue firmemente entretecida em torno de Lawrence Summers, que supervisionou o assalto e o furto de bens da Rússia, mediante aqueles papéis chamados de "cupons de privatização".





E a situação econômica no governo de Yeltsin tornou-se tão grave, quero dizer, o emprego sumiu, porque os preços cresceram descontroladamente, ninguém tinha meios para comprar e nada se vendia, ou quase nada. Nessa situação, muita gente, milhões de russos, venderam seus cupons de privatização nas esquinas das cidades, a quem oferecesse melhor preço. Claro que os futuros oligarcas seriam sempre os que tinham mais dólares e compraram tudo, como já vimos antes, quando falamos sobre eles. Tinham crédito. Esse crédito lhe era garantido pelos amigos ocidentais, o Banco Riggs Valmet e outros semelhantes, para que comprassem os tais cupons. Assim, quando os preços subiram, eles simplesmente já haviam roubado a propriedade de alguns das mais valiosas empresas, indústrias e das mais valiosas reservas minerais do mundo.





LS: E pode dizer que foi caso clássico de leveraged buyout ["aquisição alavancada": compra de uma empresa por outra que usa quantia significativa de dinheiro tomado por empréstimo"], mesmo que tenha sido aquisição alavancada 'maquiada', não é?





FWE: Bem, pode-se falar de aquisição alavancada, sim. E sei que Anne Williamson usou a expressão nas primeiras análises. Para mim, não passou de roubo. Roubo legalizado. "Aquisição alavancada" acrescenta muita dignidade à coisa. Foi roubo. "Aquisição alavancada" é termo que foi muito popular no mundo das finanças nos idos anos 1980s e início dos 90s. Mas seja o nome qual for, certamente não foi aquisição alavancada padrão. Foi operação bizarra em todos os sentidos da palavra.





LS: Figura influente nisso, que você já mencionou, foi George Soros. E em 1994, como você registra no seu livro, Soros foi descrito nos seguintes termos, no The Guardian em Londres: "O extraordinário papel de Soros, não só como o mais bem-sucedido investidor do mundo, mas hoje, possivelmente e fantasticamente como a mais poderosa influência estrangeira madura em todo o antigo Império Soviético, desperta mais suspeita que curiosidade". O que, afinal, Soros estava fazendo na Rússia?





FWE: Soros tinha conexão intermitente com Jeffrey Sachs e toda Harvard, que se tornava então um grupo de terapia de choque e trabalhava com o grupo de Lawrence Summers no Tesouro dos EUA no governo Clinton. E em 1993 já havia oposição interna no que restara da Rússia, com o velho Partido Comunista que estava no Parlamento, e tal, e a oposição popular era tanta que os opositores ameaçaram ficar incontroláveis. E Yeltsin teve de aceitar submeter toda a privatização a um referendum nacional. 





referendum, de abril de 1993, tinha quatro perguntas, sim ou não. Você apoia Yeltsin? Sim ou não? Você apoia a política econômica de Yeltsin? Sim ou não? Você deseja eleições antecipadas para a presidência? Sim ou não? Você deseja eleições antecipadas para o Parlamento? Sim ou não?





Chubais, que era conselheiro de Yeltsin e pessoa chave na economia, conseguiu então um encontro secreto com George Soros. E Soros concordou com financiar, evidentemente a favor de Yeltsin, a campanha do referendum. Canalizou mais de um milhão de dólares para algumas contas em paraísos fiscais preparadas para serem movimentadas por Chubais para subornar jornalistas e empresas de mídia. Quando começou a campanha, praticamente todos os jornalistas e empresas de mídia já estavam 'na gaveta' dos oligarcas que cercavam Yeltsin, e atuaram para influenciar a opinião pública, ilegalmente e imoralmente, claro. O resultado foi um 'sim' à privatização que o grupo de Harvard, Jeffrey Sachs e George Soros e outros já tinham posto em andamento há muito tempo. E evidentemente, nesse quadro, as empresas do próprio Soros beneficiaram-se enormemente da tal privatização, pouco depois do referendum, quando os leilões aconteceram.





LS: Uma figura que conecta o passado e o presente é Vladimir Putin, que surgiu no cenário internacional pela primeira vez em 1998, mesmo ano em que aconteceu a crise do rublo.





FWE: Apareceu em 1999; o colapso do rublo acontecera em agosto de 1998. Foi parte do projeto original da "Operação Hammer" [Operação Marreta], dos Bushs. Aconteciam coisas inacreditáveis no mercado dos bônus russos das privatizações [orig. GKO Russian Bond], cujas taxas de juros eram inacreditavelmente altas. Por isso, circulavam lá todos os tipos de dinheiro especulativo, que apareciam, realizavam lucros e pulavam fora, incluindo o Fundo Soros, Fundo Quantum e tal e tal.





Até que, com o tempo, Yeltsin esgotou, praticamente, sua capacidade de manter as coisas no lugar. E ele, que fora nomeado em agosto de 1999, nomeou seu substituto, um jovem ex-oficial da KGB que durante a Guerra Fria estivera preso na Alemanha Oriental, de nome Vladimir Putin. Bem resumidamente, Putin fora vice-prefeito de São Petersburgo e durante algum tempo estivera no comando do corpo que sucedeu a KGB chamado FSB. Ouvi de várias fontes russas que não há dúvidas de que Berezovsky, Brzezinski e outros, os oligarcas de Yeltsin tinham certeza de que manobrariam o jovem Putin, que fariam negócios com ele e, claro, que era muito jovem e não tinha nem base nem experiência política.





As coisas não aconteceram bem assim. Putin imediatamente fez um ultimatum a Yeltsin – ou renuncia ou encare as consequências. Como logo ficou claro, Putin, que logo seria confirmado no cargo, era o porta-voz de um grupo, dentro da comunidade de inteligência, nacionalistas, patriotas, chame como quiser. Mas eram nacionalistas pró-Rússia. Yeltsin ouviu que "Se você renunciar e afastar-se da política, não será incomodado", aproveitou a chance e fugiu. Antes de fugir, nomeou Vladimir Putin ao cargo de presidente interino, até as eleições, em março do ano seguinte.





Putin chegou ao poder e imediatamente convocou uma reunião com todos os oligarcas mais poderosos que haviam acumulado fortunas impressionantes à custa do patrimônio nacional russo. E os denunciou como criadores de um estado corrupto, erguido com golpes e negociatas. Acusou-os formalmente e iniciou processos judiciais contra gente como Vladimir Gusinsky e o grupo Media-Most, grupo financeiro comandado por Vladimir Potanin, que hoje está na indústria da mídia, e naquele momento deixou uma empresa de petróleo controlada por Roman Abramovich e Boris Berezovsky. Aconteceu assim. Daquele momento em diante Putin iniciou e deu andamento à batalha morro acima, duríssima, para tentar estabilizar a Rússia como país de economia viável. A recente reeleição de Putin indica que ampla maioria do povo russo compreende e apoia esse esforço do presidente e de seu governo.





LS: Ao mesmo tempo, o presidente Putin também teve de enfrentar algo que já acontecia e continua a acontecer até hoje: a marcha da OTAN para leste, em direção às fronteiras da Rússia.





FWE: Até o ex-embaixador dos EUA à Rússia Jack Matlock confirmou que as negociações entre o governo Bush em 1991, a Alemanha e Gorbachev incluíram uma garantia solene, nas palavras de Jack Matlock, embaixador Matlock, que esteve em Moscou de 1987 até 1991. Disse que, sim, que os EUA oficialmente prometeram a Gorbachev, ainda quando existia a União Soviética que, se a Alemanha reunificada pudesse permanecer na OTAN, a OTAN não avançaria para o leste. Claro que esse compromisso, como tantos outros que Washington assumiu também no governo que sucedeu Bush, não foi respeitado. E criou-se a National Endowment for Democracy, NED, sobre a qual escrevo bastante em Manifest Destiny.





Naquele momento, Vin Weber presidia a NED e foi quem usou dinheiro dos contribuintes dos EUA transferido para a NED para 'levar a democracia' aos países da União Soviética. Weber também participou do Projeto para o Novo Século Norte-americano [ing. PNAC], o think-tank neoconservador que realmente formou e modelou o pessoal de Bush-filho nos anos 2000 e 2001. E Vin Weber também trabalhava como lobbyista para o maior grupo empresarial militar-industrial doa EUA, Lockheed Martin.





Foi portanto muito útil, com outro ex-vice-presidente da Lockheed Martin, Bruce Jackson, ex-vice presidente de Assuntos Estratégicos, para o serviço de levar a democracia a países ex-soviéticos inclusive a Rússia. 





Começaram o serviço expandindo a OTAN para o leste, violando abertamente os compromissos assumidos no início dos anos 1990s. Em 2003, já haviam começado toda a expansão da OTAN para a Polônia, Hungria e todos os países ex-soviéticos.





LS: E para os países do Mar Báltico.





FWE: Sim, do Mar Báltico, bem ali à porta da Federação Russa, e Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e tal. Aí já se pode ver movimento bem claro para cercar a Rússia. Até que, em 2003-2004, a National Endowment for Democracy, a Fundação George Soros, todo o braço 'civil' das ONGs de Washington, de democratização fake, começaram a organizar e logo promoveram e puseram nas ruas a chamada "Revolução Cor de Laranja" na Ucrânia; e a "Revolução Cor de Rosa" na Geórgia, ali ao lado. 





Se você examina num mapa, logo se compreende. Se você põe um governo pró-OTAN no poder na Ucrânia – o que fizeram com Gerashchenko em 2004, lá estará implantada ameaça militar realmente grave à segurança nacional da Rússia.





Mas, naquele momento, 2003, a Rússia absolutamente não tinha condições para fazer grande coisa, além de protestar um pouco, o mais que conseguiram. Evidentemente foram ignorados. Em 2006, houve evento bastante dramático, no final de 2006. No governo de Bush-filho, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld anunciou que estavam instalando mísseis balísticos de defesa – voltarei a isso, mas aqueles mísseis eram qualquer coisa menos mísseis de defesa. Na Polônia, na República Tcheca e todas aquelas instalações de defesa antimísseis que incluíam mísseis, lá estavam para impedir ataque nuclear que viria... do Irã. Ataque nuclear.





No início de 2007, Vladimir Putin foi pessoalmente, como presidente da Federação Russa à Conferência de Segurança de Munique, realizada aqui, na Alemanha, e pronunciou um discurso no qual definiu a posição da Rússia, sobre segurança, vigente até hoje. Disse, claro, que nada do que se via em campo naquele momento tinha qualquer coisa a ver com Irã ou Coreia do Norte, como diz Washington. Washington mente. Seria como coçarem a orelha esquerda com a mão direita, como se diz em russo. Tudo ali tem por alvo a Rússia. E a Rússia considera essa ação intolerável, como ameaça à segurança nacional russa. E que os russos seriam forçados a responder.[2]





LS: Claro que tudo tem por alvo a Rússia, como possibilidade de primeiro ataque [nuclear].





FWE: É. Quanto aos mísseis de defesa... Na pesquisa para o livro, entrevistei, para livro que escrevi antes, entrevistei o coronel Robert Bowman que por curto tempo foi diretor do programa 'Guerra nas Estrelas', de mísseis de defesa, de Ronald Reagan. E que se tornou crítico muito, muito severo das políticas temerárias e irresponsáveis do governo Bush, de retirar os EUA do Tratado dos Mísseis Antimísseis e tal. E ele me disse que a ausência de qualquer atenção à defesa é precisamente o elo que falta no projeto de buscar a primazia nuclear, em que os EUA investem há tanto tempo. EUA só pensam em capacidade para o primeiro ataque. É programa muito gravemente vulnerável.





Mas é a opção dos planejadores do Pentágono desde os anos 1950s. Como me explicou o coronel Bowman: "Se você consegue impedir o contra-ataque do adversário, você tem a possibilidade de fazer um primeiro ataque e varrer o inimigo do mapa, porque ninguém pode simultaneamente atacar e contra-atacar com eficácia. Sem impedir o primeiro ataque, você se condena a atacar, atacar, atacar sempre, sem parar nunca." Significa, em resumo, que essa noção destroi toda a doutrina da guerra fria de mútua destruição garantida, a doutrina que havia conseguido manter longe da mesa, até aquele momento, as opções nucleares. 





Os russos sabem muito de estratégia militar, são especialistas, eu diria. Avaliaram a situação e concluíram que a situação criada pelo governo Bush é "simplesmente intolerável. Temos de responder, e responderemos. Mas responderemos à nossa maneira. Vocês verão."





LS: E os russos reagiram.





FWE: E os russos reagiram. Se pudermos falar um momento do presente...





LS: Claro, por favor.





FWE: Dia 1/3, o presidente Putin fez um discurso à Assembleia da Federação Russa, em Moscou, televisionado para todo o país. A primeira parte do discurso foi como todos os anos, relatório da situação da economia russa e planos para o futuro. Aconteceu pouco antes das eleições russas que garantiram, por grande diferença, mais um mandato ao presidente Putin.





Mas a parte crucial daquele discurso é a segunda parte, sobre as novas tecnologias militares da Rússia, como diz o presidente. Putin faz referência àquele discurso de 2007 em Munique, e lembrou que "dissemos lá que dessa vez a Rússia teria de responder", e que, dada a expansão da OTAN para o leste... A qual, para ser honesto, verdade é que nunca houve qualquer razão para a existência da OTAN depois de 1991 ou com certeza depois de 2000, além do que disse o primeiro-secretário geral da OTAN, na criação: que serviria para "manter os russos fora, os alemães por baixo e os norte-americanos dentro" [risos].





Mas o discurso de Putin falou sobre primazia nuclear e a resposta russa e expôs os desenvolvimentos militares que a indústria russa empreendeu, os novos produtos, projetos nos quais trabalham silenciosamente desde que Washington rompeu unilateralmente o Tratado dos Mísseis Antimísseis, 2002/2003. E mostrou ali uma coleção impressionante de mísseis, de planadores hipersônicos de baixa altitude, invisíveis aos radares e armados com ogivas nucleares, trajetórias imprevisíveis, invisíveis para os mísseis de defesa e sistemas de defesa aérea, drones submersíveis para grandes profundidades, manobrados à distância e que viajam em velocidades muito superiores às dos mais modernos torpedos. Colhidos de surpresa, 'especialistas' ocidentais de TV, como na rede CNN só conseguiram responder que 'é blefe', 'está mentindo', 'isso não existe', e assim por diante.





Gente que conhece bem a tecnologia militar russa e a qualidade e intensidade do tipo de pesquisa e desenvolvimento focado na defesa do país, já confirmou que Putin não blefava. Aviões hipersônicos que voam a velocidade de cinco vezes a velocidade do som (chamam-se "hipersônicos") e o míssilKinzhal (Adaga), que voa em velocidade Mach 10, dez vezes a velocidade do som, e que, como disse Putin diante das imagens (vídeo, 1:38"09'), "Esse míssil voa dez vezes mais rápido que o som; é manobrável em todas as fases da trajetória e escapa de qualquer sistema de defesa antimísseis em qualquer ponto, até 2.000 quilômetros de distância do ponto de disparo."





Putin apresentou seis ou sete dessas armas, que são o estado da arte da tecnologia militar no planeta e, como The Saker comentou depois do discurso (traduzido no Blog do Alok ) pôs à vista de todos o fim do jogo para o Império. Hoje, no mundo, ninguém tem alternativa militar para opor à Rússia.





Só assim, afinal, se compreende a avalanche de acusações falsas contra Putin, como se a Rússia tivesse algum interesse em se intrometer nas eleições nos EUA, para escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump. Para acusar Putin e a Rússia de violar a lei internacional, para realizar um referendumlimpo na Crimeia depois do golpe de estado da CIA em Kiev, depois de a CIA, como hoje se sabe, ou gente paga pela CIA ter posto atiradores mercenários trazidos da Geórgia para atirar contra civis na praça Maidan [ininteligível 00:55:08-0], em fevereiro de 2014, com o quê se criou o caos que levou ao colapso do governo e ao golpe de estado.





Quer dizer, como você está vendo, que não é a Rússia que anda pelo mundo como valentão, procurando briga em cada beco. Não é a Rússia que está desgraçando a Síria. A Rússia está tentando impedir que OTAN, sauditas e outros continuem a tentar destruir e semear o caos no Oriente Médio e no mundo. Qualquer um que se interesse pela verdade e por fato, pode ler meus comentários no blog, mas não só os meus. Há muitos comentários aproveitáveis em toda a internet. 





A mídia especializada em distribuir fake news é a mídia controlada pela estratégia de relações públicas da OTAN em todo o ocidente, e nada tem de mídia crítica – que nesse exato momento é alvo de censura e de sanções.





LS: Falemos um pouco sobre o presente, William, para fechar um ciclo de nossa entrevista. Como já discutimos, os cofres russos já não guardavam ouro algum, desde o início dos anos 1990s. Mas isso já mudou basicamente desde que eclodiu a crise financeira em 2007, 2008, 2009. A partir de então, o Banco Central da Rússia compra ouro como absolutamente nenhum outro país, em ritmo acelerado.





FWE: Desde a crise financeira e especialmente desde que começaram as sanções contra o país, depois da reintegração da Crimeia em 2014. Essa tem sido a política do Banco Central Russo e da Federação Russa, comprar a maior quantidade possível de ouro para garantir lastro ao rublo. Acho que os russos já são número 5, ou número 6 no mundo, em termos de reservas em ouro, e corrija-me se estiver errado, mas acho que a Rússia já está pouco atrás da República Popular da China, que também está comprando ouro vigorosamente, para garantir lastro ao seu yuan.





Acho que a Rússia está acumulando ouro, como proteção, dado que, pelo que entendo, o ouro nunca deixou de ser o valor que garante solidez às moedas. Moedas Fiat como o dólar, sobretudo depois que Nixon, em 1971, pôs o dólar ao relento. [Incompreensível] O que a Rússia está fazendo é construindo a própria segurança em termos de moeda, e agora, quando essa segurança muito provavelmente será testada pelas divisões de guerra econômica do Tesouro dos EUA, nas novas sanções.





Mas a Rússia está-se postando ao lado da China. Muito interessante que, depois de 2014, quando aconteceu o golpe de estado da CIA na Ucrânia, Putin não reagiu metendo-se na guerra de destruição que se travava no Leste da Ucrânia. Em vez disso, virou-se para o oriente, estreitando as relações com a China. E o então novo presidente chinês, Xi Jinping rapidamente entendeu a importância da União Econômica Eurasiana, da qual a Rússia é a principal economia, com Belarus e Cazaquistão, Armênia, e viu a coerência que havia entre a UEE e a Iniciativa Um Cinturão Uma Estrada. Juntos os dois movimentos acelerariam o processo de conectar infraestruturas, dutos de energia, oleodutos e gasodutos, as redes de ferrovias para trens de alta velocidade, os portos de águas profundas e tudo mais. Está-se criando o que para muitos é uma ponte terrestre eurasiana. De fato, é um espaço econômico na Eurásia, onde viverá a maior parte da população do planeta, rico em recursos naturais de que o mundo muito precisa, incluindo metais nobres e as terras raras das quais a China é hoje principal fornecedora mundial.





A Rússia tem vastas reservas de petróleo e gás, tem tecnologia militar, tem tecnologia civil, tem força de trabalho com excelente escolarização e formação, provavelmente das mais bem educadas e formadas do mundo hoje, e é país de importante produção científica. E é independente das economias falidas da Grã-Bretanha e dos EUA e também da União Europeia, onde a crise bancária, desde a crise de 2008 foi apenas varrida para baixo do tapete, mas está em ebulição e pronta a explodir a qualquer momento. 





Assim se tem um mundo OTAN carregado de dívidas. Chamemos "mundo OTAN", mundo dos países membros da OTAN, de um lado. E de outro lado tem-se a Rússia, unida. E não se pode deixar de registrar que a Rússia tem hoje uma inacreditavelmente reduzida...





LS: ... dívida!





FWE: Sim, dívida interna inacreditavelmente mínima.





LS: Exatamente.





FWE: Algo entre 13 e 17% do PIB.





LS: E com essa montanha de lastro ouro, para uma mínima dívida soberana. É quase a perfeição.





FWE: Sim. E foi planejado. Essa independência foi construída, sempre foi essa a intenção de Putin: criar condições de independência para a Rússia. 





Vou muito frequentemente à Rússia, tenho amigos muito, muito especiais na Rússia, que fui fazendo ao longo dos anos. Estive na Rússia pela primeira vez em 1994. Era muito diferente! Era o auge dos tempos de Yeltsin e daquela insanidade. Os russos são, não só povo muito orgulhoso, mas são, principalmente, povo determinado, aplicado a fazer acontecer o que seja decidido. Aprenderam a defender a própria existência e o fizeram sempre, há muito mais de mil anos, desde o grande cisma entre a igreja do ocidente em Roma, e do oriente, em 1054. Entendo que foi data crucial, decisiva na história moderna, aquela divisão.





Mas os russos atravessaram duas Guerras Mundiais e o estupro da própria nação, no governo Yeltsin, processos judiciais, condenações e prisões inacreditáveis e nem assim jamais afrouxaram na defesa da própria existência nacional. É algo que acho que Washington e aqueles neoconservadores nem fazem ideia do que seja.





1:03





LS: Ainda uma coisa que quero perguntar, e é minha pergunta final. Você é especialista renomado no campo da geopolítica e história do petróleo. E a partir desse mês, abril de 2018, temos um contrato futuro em Xangai, denominado em yuan, para o petróleo. E também ouvimos que os chineses planejam fazer preço em yuan para o petróleo que compram internacionalmente. A Rússia é candidata número um como exportadora?





FWE: Com certeza é. Com certeza. Rússia e China estão conectando os seus mercados financeiros, cada vez mais profundamente. O governo russo está no processo, acontecerá ainda esse ano, para emitir papéis russos denominados no yuan chinês. O anúncio do petroyuan, os contratos futuros de petróleo vendidos em Xangai, claro que nada acontecerá da noite para o dia, mas está tudo pronto para início positivo na aceitação pelo mercado. Tem as bases necessárias para ser aceito nos negócios do petróleo.





Voltemos um pouco aos anos 1970s – e documento o processo em detalhes em dois de meus livros Myths, Lies and Oil Wars e A Century of War. No início dos anos 1970s, quando Nixon separou o dólar e o ouro, o dólar relativo ao marco alemão e ao yen japonês caiu como pedra, coisa de 40% no período de New York estavam sofrendo, houve um choque no preço do petróleo, orquestrado. Não vou entrar em detalhes, há farta documentação nos livros.





LS: E Xeique Yamani também falou sobre isso.





FWE: Sim. E me convidou, depois de ler meu livro, para sua casa em Londres, onde ele recompõe as energias, em 2000, setembro de 2000. Convidou-me para um jantar e discussão privada, para conversar sobre o que lera. E depois, foi a uma entrevista na CNN e mencionou o assunto, meu livro, título e autor. Na transcrição da entrevista, todas as referências ao livro foram omitidas, de modo que nem se desconfia que algum dia existiram. Mas Xeique Yamani disse-me que você é o primeiro jornalista, ou a primeira pessoa, exceto eu, que explica corretamente o que foi aquele choque do petróleo. 





Sem dúvida foi manipulado, dentre outros, por Henry Kissinger, secretário de Estado, e por um grupo no establishment atlântico, chamado Grupo de Bilderberg, que se reuniu em Saltsjöbaden, Suécia, em maio, antes da Guerra do Yom Kippur.





Seja como for, os círculos dos EUA em torno de Rockefeller, que naquele momento era presidente de USA Inc., pode-se dizer. Eles arquitetaram um aumento de 400% no preço do petróleo; para garantir que Alemanha e Japão não pudessem negociar petróleo em marcos alemães, o que derrubaria a demanda e o valor do dólar. Mandaram uma delegação do Tesouro dos EUA para assinar um acordo com a agência monetária da Arábia Saudita, para um novo relacionamento, pelo qual o superávit de petrodólares ou petrodólares da OPEC compraria dívida dos EUA.





LS: E por fora dos leilões normais de condições especiais.





FWE: Sim. Em troca, Washington daria aos sauditas dezenas de bilhões de dólares em equipamento de defesa.





LS: E a Arábia Saudita usaria seu status de produtor decisivo na OPEC, para só aceitar dólares nos negócios de petróleo.





FWE: E esse troca-troca aconteceu depois de 1975, formalizou os sauditas na posição de produtor decisivo na garantia pela OPEC de que só venderia seu petróleo em dólares. Funcionou assim até o tempo de Saddam Hussein, durante as sanções, pouco antes de os EUA invadirem o Iraque, e Saddam Hussein começar a comprar petróleo através de um banco francês, e em euros, não em dólares.





LS: E ele ganhou muito, porque realmente vendeu seu petróleo em euros.





FWE: Sim, sim. É isso. Aí está. Tudo que aquele negócio nos EUA conseguiu até hoje foi segurar o EUA-dólar, apesar da evidência de que a atividade industrial importante nos EUA foi-se toda pelo ralo ao longo dos últimos 40 anos, desde que separaram o dólar e o ouro e [putting of English dollars for the world economy?]. Assim, a ideia de que China e Rússia negociariam em energia, e de que outras economias começariam a vender petróleo para a China – o Irã, por exemplo, é candidato evidente –, em petroyuan, não em petrodólares... Tudo isso começou lentamente, como gotas de ácido que começaram a corroer o status do EUA-dólar como moeda de reserva. E se a coisa continuar, acabou-se o jogo para os EUA como potência financeira global.





LS: Esclarecendo para nossos ouvintes e leitores. Se você é obrigado a usar dólares para pagar pelo petróleo que compra, você fica também obrigado a comprar dólares para poder comprar petróleo.





FWE: Exatamente.





LS: E se esse o mecanismo de que estamos falando continua, os EUA têm um problema, porque o dólar que anda voando internacionalmente pelo planeta rapidamente terá de trilhar o caminho de volta aos EUA pátria-mãe.





FWE: É. E acontece outra coisa também. A dificuldade para vender agora, quando está em curso essa magnífica Trumpeconomia [orig.Trumponomics], como chamo. Há projeções de que o déficit dos EUA, diferença entre a arrecadação e o dispêndio, dentro de dois anos, em 2020 excederá um trilhão de dólares ao ano por ano, até onde a vista alcança. Ao final da década, em 2028, me parece, estimada pelo gabinete de orçamento do Congresso, a dívida pública dos EUA estará bem acima de $33 trilhões. Hoje está em 20. Deve chegar talvez a 38, simplesmente está fora de controle. Implica dizer que, se a capacidade do EUA-dólar para se impor ao uso na economia mundial ficar muito gravemente comprometida, será preciso subir tanto as taxas de juro para vender essa dívida, que todo o sistema torna-se disfuncional.





LS: Sim, mas já é a situação que se viu nos pagamentos de juros nesses últimos anos sobre a dívida já existente, $400 bilhões por ano.





FWE: É.





LS: E se as taxas de juro subirem...





FWE: Isso, com juros negativos, abaixo de zero, mas agora, você sabe, se tiverem de subir os juros para 5, 6, 7, 8% como aconteceu nos anos 1980s, a coisa toda explode.





LS: Assim, voltando ao ouro, o ouro tem vantagem relativa sobre bônus, ações, o EUA-dólar ou outra dessas moedas Fiat. Se você tem dólar físico, não há risco de calote.





FWE: Exatamente.





LS: Assim sendo, você entende que o ouro será o vencedor final da crise financeira em curso, quando realmente estiver em plena rotação?





FWE: Bem... Está bem documentado o movimento de J. P. Morgan, Chase e outros bancos seletos, nessa colusão com o Federal Reserve, estão há anos deprimindo artificialmente o preço do ouro. Cada vez que há nova crise financeira, eles intervêm e mantêm o ouro preso numa faixa bem estreita. Até que isso deixará de funcionar. Gente que acompanha mercados do ouro muito mais do que eu diz que os preços podem chegar rapidamente a $10 mil por onça, e até mais.





Seja como for, o ouro, como você disse, não tem risco de contrapartida, risco de calote, e é formato histórico para entesourar valor. É uma das belas mercadorias que há por aí. Tem também hoje um significado especial, além do significado econômico e histórico. Falo do fato de a China, hoje, ser a principal produtora de ouro, de mineração de ouro, em todo o mundo. Não é a África do Sul. África do Sul já ficou em 2º lugar, muito para trás...





LS: ... E a Rússia é a terceira maior produtora, na mineração de ouro.





FWE: Sim, China, África do Sul e Rússia, Rússia é número três.





LS: E muitos estados-membros da Organização de Cooperação de Xangai ou produzem ou estão comprando ouro.





FWE: As conexões das ferrovias construídas como parte da Iniciativa Um Cinturão Uma Estrada, da China, são orientadas em parte para as áreas onde há reservas conhecidas de ouro, mas onde os soviéticos não construíram a necessária infraestrutura para levar o ouro aos mercados. Tudo isso para dizer que as possibilidades são fascinantes. Não só para China e Rússia, de fato para todo o mundo, possibilidades para construir e integrar, não para dividir e destruir e bombardear e levar à bancarrota – que são as únicas políticas que Washington parece compreender atualmente.





LS: Sim, sim. Podemos resumir com uma frase que os chineses usam muito: "Que você viva tempos interessantes"... Você e todos.





FWE: Com certeza chegaremos lá.





LS: OK. Muito bom. Obrigado, muito obrigado, William, por essa entrevista.





FWE: Eu que agradeço, Lars. [Fim da transcrição]





* Ing. Cognitive dissonance. Optamos nessa tradução por "cognição dissonante", como se encontra em traduções ao francês, e expressão que nos parece mais correta, por boas razões de semântica e pragmática linguística, que não caberiam nessa nota. Correções e comentários são bem-vindos [NTs].
[1] Como nunca falta na mídia-empresa do Brasil algum evento sempre suposto muito democrático, a cada vez que os golpes-estupro do Brasil pela CIA dão um passo, 1993 foi o ano em que os brasileiros tiveram oportunidade de escolher entre "Regime Republicano" e "Monarquia" e entre "Parlamentarismo" e "Presidencialismo". A votação, marcada inicialmente para setembro, foi antecipada para o dia 21/4/1993, e os resultados podem ser encontrados aqui. Tudo superficialmente muito democrático. Amanhã, esse 'evento' completará 25 anos.



Em setembro de 1992 Collor sofrera impeachment e renunciara em dezembro, quando o vice-presidente Itamar Franco assumiu a presidência. Em seguida, o "Plano Real" iniciado dia 14/6/1994 criaria a ficção de que teria 'salvo' o Brasil e elegeria FHC, Clinton e a CIA para governarem o Brasil até 2002, quando afinal, embora com Carta aos Brasileiros e timidez, o Brasil conseguiu eleger Lula, presidente de2003 e 2010, depois Dilma. Com isso, e ajudados, nós, pelas guerras de Bush, quando EUA afundaram-se no Oriente Médio e deram uma folga à América Latina, vivemos tempos de prosperidade no Brasil. 


Mas a folga acabou quando Iraque, Irã, Síria, Rússia e Trump derrotaram Clinton e a CIA no Oriente Médio, e o "Estado Profundo & Grana EUA-Sionista". Então, imediatamente, a CIA, com STF e o juiz Moro, derrubaram a presidenta Dilma e completaram, no Brasil, a "revolução colorida cor-de-a-bandidagem-no-poder". Nesse ponto estamos hoje, sob golpe, em 2018. Segue a luta [NTs].
[2] Ver também 5/3/2012, "Agora é encarar: o Czar voltou!", Pepe Escobar, Al-Jazeera (de Bangkok, Tailândia), ing. Get over it: The Tsar is back”, port. em Redecastorphoto [NTs].

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